Como Anda A Inovação Na Netflix? - Escola Design Thinking

Hoje de manhã eu estava lendo um artigo chamado “O que a Netflix precisa para fazer um talk show noturno de sucesso?”, artigo esse que fala de dois talk shows produzidos pelo Netflix que foram cancelados recentemente (The Break with Michelle Wolf e The Joel McHale Show), no qual David Lidsky diz:

“Então você tem talentos estabelecidos pela Netflix num set maravilhoso, fazendo mais ou menos a mesma coisa que tem sido a fórmula de talk shows por mais de 60 anos. Michelle Wolf é engraçada, mas o programa dela basicamente era um standup semanal com algumas partes gravadas anteriormente. A Netflix gosta de pensar sobre si mesmo como sendo um quebrador de moldes, mas Wolf falava num palco que era exatamente igual aos palcos de todos os outros talk shows – música à sua esquerda, assentos à sua direita. No episódio que acabou sendo seu último, ela fez uma apresentação encantadora sobre as convenções de documentários criminais, o que foi uma alfinetada de leve à Netflix, mas não tão profunda que pudesse ser considerada uma mordida na mão que a alimentou.”

As palavras dele me fizeram pensar numa coisa: Como é possível que uma das empresas mais inovadoras do mundo está tendo problemas na hora de inovar? E por que, apesar de ser a empresa que mudou o comportamento do mundo todo no quesito consumo de mídia televisiva, ela não está conseguindo alcançar audiências de talk shows noturnos?

Lidsky parece ter a resposta, ele continua:

“Há várias maneiras possíveis para a netflix achar sua própria identidade de talk show. Poderia ser algo que extrapolasse a idea de produzir um show inteiro só de quadros como os que apresentadores como James Corden fizeram ser bem sucedidos em seus programas. Poderiam postar um ou dois quadros novos no aplicativo à meia noite e depois promov6e-los novamente de manhã, tentando assim criar um hábito de consumo, como o Youtube fez e acabou virando a casa de vídeos com conteúdos de talk shows noturnos.”

Não tenho certeza que seja tão simples. Talk shows são universos ainda majoritariamente masculinos. Pra mim, a ideia de replicar um conceito obsoleto e batido – todo talk show que existe é um réplica de outro que já existiu on ainda existe – não faz muito sentido. De qualquer forma, dissertemos.

Eu sei que existem apresentadoras mulheres como a Ellen Degeneres, mas a mensagem dela é simples: positividade e fofocas do mundo das celebridades. Café com leite. Já os programas de seus colegas noturnos, em geral, trazem ao público anedotas políticas e, well, fofocas do mundo das celebridades, mas com um viés levemente mais voltado para a arte, o que “refina” o conte;udo do programa. Programas diurnos positivos, programas noturnos mais cabeça, todos extrememente parecidos mesmo com tantas diferenças.

Na Netflix, o programa da comediante Chelsea Handler, por exemplo, foi uma boa tentativa em ter uma mulher no comando de um programa que “passava” após as três da tarde. Eu era uma telespectadora fiél do programa dela porque eu achava ele diferente – em muitos episódios não havia nenhuma celebridade como convidado, só políticos, cientistas, tecnólogos, gente de todo tipo, gente interessante falando de coisas interessantes. E mesmo quando os convidados eram celebridades, eles estavam discutindo arte e política e não contado alguma história engraçada da última viagem que fizeram. Eventualmente, o programa foi cancelado após sua segunda temporada. Aqui fica, então, minha humilde opinião do porquê a Netflix não está conseguindo inovar em seus talk shows.

 

Primeira coisa; apesar da Netflix não ter uma grade de programação, esses programas são qualificados dentro do gênero “late night show”, o que pra mim não faz muito sentido. Sim, entendo que este é um conceito tão marcado que a indicação do horário do programa se torna menos importante do que o que aquele gênro de programa representa – sofá, convidado, caneca, banda, piada, política – mas acho que vale a ressalva já que o objetico é inovar.

Segunda coisa; o programa da Chelsea – que é o único que assisti religiosamente, então o único que posso verdadeiramente opniar – acabou tomando um rumo extrememente político e, às vezes, faltava um pouco de “alívio humorístico”, como dizem os anglo saxões. Ela, que tem um currículo longo em standup e conversas com celebridades, seria quiçá a combinação perfeita para ser uma apresentadora de talk show noturno – assim como no Brasil temos agora Tatá Werneck, por exemplo -, mas numa tentativa de produzir um conteúdo mais político e relevante, sua aceitação entre o público caiu. Apesar de pessoalmente ter ficado triste com o fim do programa, eu acho que entendi desde bem cedo que o público talvez fosse continuar querendo de Chelsea só baboseiras engraçadinhas, o que é uma pena tamanha.

Terceira coisa (e por aqui eu paro); se inovação é o maior objetivo da Netflix, talvez remoldar a roda não seja a ideia mais eficaz, especialmente porque eles foram tão bons em reinventá-la. Talvez a Netflix não seja a melhor casa pra um talk show noturno e, se não for, qual o problema? Ela já é a casa de tantas ideias que mudaram o status quo do entretenimento para melhor para sempre.

Se alguma coisa só é inovadora quando traz novo valor para a vida de alguém, eu prefiro assistir mil tentativas de qualquer coisa que não tenha gênero específico do que assistir mais um remake daquele mesmo programa de sempre.

Você pode ler o artigo completo de Lidsky no site da Fast Company.

 

Rani Ghazzaoui

Rani Ghazzaoui é escritora, atriz e pubicitária. Mora fora do Brasil há onze anos, atualmente em Sidney, Austrália, e é Head of Content & Communications na Echos.

Antes de entrar pro time Echos, ela trabalhou como redatora em agências de publicidade, em TV e em Digital Media. Também já foi gerente de contas de mídias digitais e, mais tarde, estrategista para uma empresa americana de tecnologia especializada em Inteligência Artificial.

Rani é curiosa e acredita que criatividade e inovação são ferramentas essenciais para que qualquer negócio prospere.

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