Eu passei a maior parte das últimas duas décadas escrevendo sobre relacionamentos: os românticos, os platônicos, o que eu queria deles, o que eles queriam de mim, o que eu ganhei, o que eu perdi. A natureza humana é desenhada para o afeto; a gente não nasceu pra viver sozinho e, por isso, passamos a eternidade procurando por companhia, por amor, por amizade, por entendimento, por pertencimento.

Mesmo que nosso cérebro peça tal conexão, navegar pelos mares das relações interpessoais é uma arte na qual a maioria de nós mortais não consegue alcançar maestria, já que a existência é complexa e os seres humanos são teimosos pra caramba, especialmente com as pessoas que amam.

Design Thinking é uma técnica amplamente reconhecida em culturas modernas, aplicada para resolver problemas extremamente difícieis em empresas ao redor do mundo. Seus ensinamentos e técnicas possibilitam que profissionais de qualquer segmento de indústria sejam capaz de inovar e resolver problemas seguindo um punhado de passos simples. Bom, se Design Thinking oferece uma abordagem que mantém o humano no centro de suas questões e é capaz de resolver os problemas mais cabeludos, a mim me parece que usar esta ferramenta para melhorar as nossas relações é uma decisão sã – já que, vale lembrar, problema profissional nenhum deste mundo compara-se com a complexidade daquela eterna briga do casamento que parece que nunca vai chegar ao fim.

A ideia de aplicar inovação e criatividade à nossos relacionamentos para que eles se mantenham saudáveis me fez pensar e, quanto mais eu pensava, mais eu ficava com a sensação de que, de um jeito ou de outro,  todos nós já estamos aplicando muitos dos conceitos de Design Thinking à nossas vidas, a gente só nunca se ligou nisso. E, claro, tentar transformar suas relações num workshop de Design Thinking seria bizarro, mas e se a criatividade é um impulso humano tão intrínseco que, sem perceber, todos nós estejamos agimos como designers, mesmo sem apresentações de Power Point, salas de reunião, sessões de brainstorming e post-it coloridos por todo lado?

Os princípios fundamentais do Design Thinking – entender o problema, fazer pesquisa, ideação, prototipagem rápida, testes e iteração – são táticas que a gente aplica instintivamente ao nosso dia a dia, pode reparar. Quem nunca ficou analisando um problema da espécie romântica por horas e horas com o parceiro tentando chegar numa solução que fizesse aquela briguinha recorrente sobre um mesmo assunto finalemente se solucionar?

Como na psicologia, no momento em que uma pessoa está ciente de seus modelos, padrões e problemas, é que ela pode tentar mudar seu comportamento. A combinação da sabedoria do Design Thinking com o autoconhecimento de uma pessoa que quer melhorar seus relacionamentos é poderosa já que te dá perspectiva e te faz concentrar nos problemas reais ao invés de perder tempo tentando resolver os problemas errados. Ela faz com que as pessoas que são parte do relacionemnto sejam colocadas no centro do problema e faz com que se perceba que uma boa solução é uma solução que responda aos pedidos de todos os envolvidos. Ela tira da discussão a mesquinharia, o discurso decorado, o egoísmo. Ela dá a oportunidade das pessoas falarem e serem ouvidas em medidas proporcionais, de idealizar soluções que possam ser prototipadas e testadas colabrativamente. Ela garante a chance de errar, já que, em Design Thinking, errar muito e errar rápido é o melhor jeito de se chegar à melhor solução possível. Ela te força a olhar suas relações mais a fundo e, nesse exercício, pode também te mostrar quais relações merecem destaque na sua vida.

Por séculos, poetas, escritores, músicos e artistas de todos os tipos tentaram explicar o amor e, enquanto eu passo a vida tentando humildemente fazer o mesmo, eu também consigo ver potencial em usar técnicas que desafiem o meu senso de empatia, mantenham o meu cérebro afiado e, quem sabe, melhorem as minhas relações com as outras pessoas.

Design Thinking não é só uma metodologia que ajuda pessoas e empresas a resolverem problemas, ele é também uma expêriencia catártica que pode profundamente mudar o futuro das relações humanas. Se eu fico com o pé atrás em acreditar cegamente na fé, é porque bem na minha frente está o design.

 

Rani Ghazzaoui

Rani Ghazzaoui é escritora, atriz e pubicitária. Mora fora do Brasil há onze anos, atualmente em Sidney, Austrália e é Gerente de Conteúdo e Marketing da Echos na Oceania.

Antes de entrar pro time Echos, ela trabalhou como redatora em agências de publicidade, em TV e em Digital Media. Também já foi gerente de contas de mídias digitais e, mais tarde, estrategista para uma empresa americana de tecnologia especializada em Inteligência Artificial.

Rani é curiosa e acredita que criatividade e inovação são ferramentas essenciais para que qualquer pessoa ou negócio vá pra frente.

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