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Lucas Pretti, Francele Cocco, Carol Gutierrez e Maurício Alcântara, além de serem amigos, compartilham a vontade de transformar a realidade. Envolvidos em diversos movimentos sociais, especialmente ligados a comunicação e cultura, estavam inquietos com a forma como consumimos e construímos nossas relações e refletindo sobre essas questões, surgiu a ideia do Preto Café: “Deveríamos fazer um café, mas um que as pessoas fossem para se encontrar, que tivesse outra relação, que não obrigasse o consumo”.

Baseado no modelo de economia aberta e compartilhada e no comércio justo, no Preto Café, os custos envolvidos na manutenção do café são disponibilizados em uma lousa, cabendo ao cliente avaliar o quanto acha justo pagar pelo o que consumiu. Além disso, não há cardápio nem garçons, o que permite às pessoas se apropriarem do espaço de outra forma e a criarem novas maneiras de conexão, tornando o café um espaço público, coletivo.

Ideia maluca? O Preto Café opera há pouco mais de um ano e tem provado que nesse modelo a conta fecha e abre caminho para as formas de fazer negócio do futuro, que partem do pensamento sistêmico para gerar impacto na sociedade, mas que são também viáveis economicamente e estão fortemente ligadas a um propósito pessoal. E é claro com muita transpiração para fazer o negócio acontecer!

Agora convidamos você a pegar uma xícara de café e conferir nosso bate-papo com um dos sócios do Preto, Lucas Pretti, que compartilhou conosco a história da iniciativa e como o projeto se concretizou. Tim-tim!


Lucas, conte um pouco sobre você, sua história, interesses e, se quiser, compartilhe sua comida preferida 🙂

Participo sendo o mistério do planeta. 😉

Na sua opinião, por que precisamos criar novas formas de viver? 

O mundo está organizado em volta das relações de trabalho e de classes sociais, que vão ganhando roupagens e complexidade conforme a tecnologia evolui, mas que no limite não afetam o status quo: alguns têm, outros vendem sua força de trabalho para sobreviver. Pra mim sempre pareceu que fazer de outra maneira é uma tentativa de fissurar e tentar respirar fora dessa lógica.

Qual é o significado de empreender?

Nunca me vi como empreendedor, tenho aliás um pouco de resistência com a palavra. Mas é um ponto bom de abordar. Sinto que o que move a maioria dos que se colocam como “empreendedores” é a vontade de ser patrão, de se libertar em nome do benefício individual. “Eu me libertei, os outros que se libertem também. Enquanto não fizerem isso, que trabalhem pra mim”. É um raciocínio perigoso, leva à meritocracia, à manutenção dos privilégios, e não o contrário. Para mim, fazer diferente é buscar autonomia, empoderar as pessoas para fazerem o que quiserem, tentar construir novos caminhos de pensamento. Por isso não me vejo como empreendedor. Minha motivação é artística e política.

Ainda estamos acostumados a encarar o comercial e o social como dois mundos distintos. Por que você acredita que o social pode se conectar aos negócios?

Comercial também é uma palavra problemática. É legítimo pensar o comércio como troca de bens, mas na contemporaneidade relacionamos comercial ao interesse de vender mais e a qualquer custo. Me sinto mais a vontade falando em impacto social e sustentabilidade, porque assim a relação fica óbvia: para fazer com que meu trabalho gere impacto, preciso que ele se sustente.

E aí podem caber todas as pirações sobre como se sustentar, que não precisam necessariamente passar pelo comercial. Crowdfunding, por exemplo, uma das maneiras que já utilizei para realizar projetos de impacto, tem muito mais a ver com comunidade e compartilhamento do que com comércio.

Nesse sentido, como surgiu o Preto Café? Conte um pouco sobre o projeto e o propósito envolvido. 

placa preto caféNós quatro (eu, Francele Cocco, Carol Gutierrez e Maurício Alcântara) somos amigos e temos uma trajetória muito ligada a diversos tipos de ativismo e militância em movimentos sociais, principalmente da comunicação e da cultura.

Fizemos parte de coletivos, realizamos coisas e chegou um momento em que todos nós estávamos no mercado tradicional de novo. Em conversas em casa, o Maurício sempre nos provocava dizendo que, se você precisar esperar 1 hora na Av Paulista, com certeza irá consumir algo – um café, um livro, um suco. São Paulo é privada e privatizada.

Num desses dias, refletindo sobre como deveriam ser as coisas, saiu um “Deveríamos fazer um café, mas um que as pessoas fossem para se encontrar, que tivesse outra relação, que não obrigasse o consumo”. E ficou por aí, no desejo. Duas semanas depois conhecemos o Curto Café pelas redes, o primeiro pague-quanto-quiser, funcionando lá no Rio. Caiu a ficha de que o nosso café utópico deveria ir nesse modelo.

A partir de então, fomos construindo, conversando com um monte de gente, fazendo e desfazendo alianças, buscando ajuda jurídica e tributária para, mais de 1 ano depois, abrir o Preto.

Vocês adotaram um modelo de negócio bem diferente do convencional para o Preto Café que é o colaborativo. Por que vocês acreditam nele e quais foram e são os desafios de adotá-los?

Nós acreditamos que o modo de fazer em rede não é nada diferente da natureza humana. Basta ir a qualquer comunidade tradicional – indígenas, quilombolas, etc – para ver como tudo funciona na base do comum. Para fazer o Preto, iniciamos e cultivamos uma comunidade de gente que poderia se interessar em participar (daí veio, por exemplo, quase todas as louças, doadas, e ideias como a de procurar o Instituto ProBono, para nos ajudar a desenvolver o modelo formal). O que propomos é uma relação comercial que não se baseia em preço e isso dá um nó no sistema.

Queremos que pessoas frequentem o café, e não “consumidores”. É provocativa a opção de ser transparente, apostar na confiança e dar liberdade às pessoas valorarem os itens que consumiram e o tempo passado ali. Esta proposta de pensar diferente é o principal desafio, já que estamos falando de uma mudança cultural. Por isso é tão importante o diálogo e a conversa com quem vai ao Preto, para mostrar custos, para ajudar a refazer o caminho mental de dar um preço para as coisas e para dar escala humana ao atendimento. Numa Starbucks você é atendido por um robô, não sabe a origem dos produtos nem o lucro que está gerando. Somos anti isso, anti-industriais.

preto café preços

Por fim, gostaríamos que deixasse uma mensagem para as pessoas que tem o sonho de fazer a diferença no mundo 🙂

Então vou de Clarice: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

Rebeldes com causa, empreendedores com propósito, que querem romper com os modelos tradicionais e criar o futuro dos negócios, convidamos vocês a conhecer o ENACT – ENABLING ACTION for better futures. O ENACT é um programa para quem quer criar negócios disruptivos, de alto impacto e aliado ao propósito pessoal na intersecção das tecnologias emergentes, gerando impacto positivo e transformação da sociedade. Conheça mais e seja parte da próxima turma de empreendedores do futuro!


Onde fica o Preto Café? 

R. Simão Alvares, 981, Pinheiros – São Paulo/SP – de terça à sábado +/- das 12h às 19h.

Para mais informações, acesse http://pretocafe.com.br/.

Jornalista, lucaspb-300x300artista multimídia e pesquisador. É diretor da Change.org no Brasil, a maior plataforma de abaixo-assinados do mundo. Foi editor dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e HuffPost Brasil. Colaborou com dezenas de publicações, como Superinteressante, Galileu, Le Monde Diplomatique, Época, Trip e Catraca Livre. Foi membro da Casa da Cultura Digital e idealizou o Festival BaixoCentro. Pesquisa arte e tecnologia no Instituto de Artes da Unesp. Co-idealizou o Preto Café. É consultor de inovação no Mezclador.

Ricardo Ruffo

Ricardo Ruffo is a born entrepreneur, educator, speaker and explorer. As a writer by passion Ricardo daydreams on how the world is changing fast and how it could be.

Ruffo is the founder and global CEO of Echos, an independent innovation lab driven by design and its business units: School of Design Thinking, helping to shape the next generation of innovators in 3 countries, Echos – Innovation Projects and Echos – Ventures. As an entrepreneur, he has impacted more than 35.000 students worldwide and led innovation projects for Google, Abbott, Faber-Castell and many more.

Specialist in innovation and design thinking, with extensions in renowned schools like MIT and Berkeley in the United States. Also expert in Social Innovation at the School of Visual Arts and Design Thinking at HPI – dSchool, in Germany.

Naturally curious, love gets ideas flying off the paper. He always tries to see things from different angles to enact better futures. In his free time, spend exploring uninhabited places around the world surfing.

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