Muitas pessoas nos questionam sobre o que acontece durante o curso de Design Thinking. Apesar de ser um tema cada vez mais recorrente, ainda é difícil entender o real valor de ser aprender um novo modelo mental e quanto o design pode ser um diferencial importante na geração de soluções inovadoras e humanas.

Dessa forma, a seguir compartilho minha experiência durante a segunda semana do curso de Design Thinking Specialisation quando participei da turma 7.

Na semana 2, começamos com uma atividade chamada Debate. A turma foi divida em dois grupos, um deles seria composto pelos defensores de determinado tema polêmico a ser proposto e o outro seria composto pelos contestadores do mesmo tema.

Apesar desses papéis pré-definidos, eles poderiam ser mudados a qualquer momento, independentemente da vontade dos participantes e ainda poderia ser no meio da argumentação. Assim, uma pessoa que até aquele momento estava fervorosamente defendendo determinado ponto de vista, deveria, em segundos, encontrar novos argumentos para criticar a mesmíssima ideia que estava defendendo.

Foi algo obviamente desafiador, mas também muito divertido!

Se pudesse destacar a parte mais importante dessa atividade, diria que foi o momento pós-atividade, em que as pessoas compartilharam aprendizados bastante profundos. Como por exemplo, como foi difícil para todos mudar de perspectiva sobre o mesmo assunto e o quão fácil tendemos a nos agarrar às nossas ideias e crenças. Foi também desafiador para os participantes ir de encontro às suas ideias e convicções iniciais.

No entanto, é exatamente esse o desafio que enfrentamos em um processo de design: possuir a habilidade de construir um novo entendimento sobre questões sobre as quais já desenvolvemos uma opinião cristalizada e rígida sobre elas.

Outro importante aprendizado trazido foi entender as diferenças entre diálogo e debate, bem como a complexidade que envolve ambas as interações. As mentes das pessoas envolvidas no processo de troca de ideias pode levar a caminhos inesperados e decisões devem ser tomadas rapidamente. O resultado é praticamente desconhecido para aqueles que embarcam nessa “jornada”.

Essa complexidade corresponde exatamente a própria natureza da nossa realidade. Edward Lorenz, um meteorologista, na década de 60, ao estudar padrões de clima, entendeu pela primeira vez a complexidade do fenômeno e desenvolveu a Teoria do Caos, trazendo uma perspectiva diferente do modelo mental cartesiano no qual vivemos e estamos acostumados.

Esse novo entendimento demanda de nós a habilidade de pensar de maneira sistêmica, isto é, a olhar para o desenvolvimento humano a partir da sua própria complexidade. Esse recorte mental ou abordagem engloba não apenas o indivíduo, mas leva em consideração o contexto e as relações estabelecidas nesse sistema. Nesse sentido, o Design Thinking é uma abordagem que oferece um modelo pelo qual podemos navegar no caos e nos oferece as lentes para nos ajudar a enxergar as conexões mais significativas no meio dessa complexidade.

Na verdade, o caos é um prelúdio à criatividade. Por esse motivo é que um dos desafios mais importante durante o processo de Design Thinking é lidar com discussões e decisões em grupo por meio das fases divergentes e convergentes do processo.

É de extrema importância que todos os membros do grupos possuam ideias individuais e divergentes, mas que saibam construir em cima das contribuições dos outros. Com o objetivo de nos ajudar nesse processo, independentemente do desafio dado, foi solicitado aos grupos que elegessem um “timekeeper” ou um controlador do tempo; um documentarista para registrar todas as ideias; e um facilitador interno (líder) responsável por manter a qualidade da escuta dentro do grupo.

Após toda exposição dos conceitos e das orientações necessárias, estávamos prontos para iniciarmos nosso segundo projeto no curso: “Como podemos melhorar a experiência de compra nos mercados no nosso entorno?”. Nosso primeiro passo foi mergulhar no entendimento do desafio.

Para tanto, usamos algumas ferramentas. A primeira delas foi sobre como coletar ideias e informação baseadas no que o grupo já sabia sobre o tema e quais conhecimentos precisávamos explorar mais. A segunda ferramenta nos ajudou a “quebrar” o desafio em “pedaços” – isso mesmo, nas palavras que compõem o desafio, como (1) melhorar | (2) experiência de compra | (3) mercados no entorno – e a expor significados e conexões que vinham das nossas mentes relacionados a cada “pedaço”.

Esse exercício expandiu nossa perspectiva sobre a extensão do desafio e nos preparou para a próxima etapa: a pesquisa triangulada, que representa (1) Ouvir as pessoas (entrevista) | (2) Observação das pessoas e o que elas fazem durante uma compra (observação) | (3) Empatizar com sentimentos do comprador durante a experiência de compra, isso é, se colocar no lugar de um comprador e sentir o que ele sente nesse processo (design participativo).

Após preparar um guia para iniciarmos uma conversa com os compradores, todos os membros dos cinco grupos partiram para a rua para realizar o processo investigativo.

No segundo dia do projeto, construímos nosso Mapa da Empatia e criamos nossa persona, tudo baseado na combinação das pessoas com as quais conversamos em campo e dos dados coletados. Então, a partir da análise de todos os dados e percepções vindo do campo, chegamos aos insights (ou novas percepções sobre o desafio) que contribuíram para formularmos um novo ponto de vista (POV) para o projeto. Chegar a um (novo) ponto de vista sobre o desafio foi essencial para as próximas etapas, as etapas de ideação e de prototipação.

Ao fim do terceiro dia, os cinco grupos chegaram a 5 soluções excelentes sobre a experiência de compra em um supermercado. E acredito que com um pouco mais de tempo e trabalho, poderiam realmente ser implementadas!

Cuca Righini

Cuca Righini é Consultora de Aprendizagem e Cultura na Echos, além de ser Arquiteta, Educadora e Facilitadora de Processos Colaborativos de Aprendizagem e Inovação. Formada pela FAUUSP, possui Diploma de Ensino de Inglês para Adultos (Cambridge University), especialização em Pedagogia da Cooperação (Projeto Cooperação), especialização em Aprendizagem Mediada (Feuerstein Institute), formação em Design Thinking (IDEO), Design Thinking para Educadores (Educadigital) e Comunicação Não Violenta (Uniluz). Possui 18 anos de experiência como educadora (Cultura Inglesa, Chapel School e St. Nicholas School) e 7 anos como coordenadora acadêmica e course designer. Atuou internacionalmente em projetos multidisciplinares ligados a ensino de língua e cultura, junto a editoras britânicas, publicação de artigos acadêmicos e apresentação em congressos internacionais.

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