No primeiro momento, pensar em design remete a pensar na estética das coisas: design do carro, de um livro, de um objeto ou de um produto. Porém, o design – aliás uma palavra de difícil tradução para o português – em sua origem representa um verbo, to design, que está relacionado à ação e ao planejamento de soluções considerando as necessidades das pessoas.

“To Design” significa, em síntese, projetar algo não apenas para alguém, mas com alguém. Porque o design nos permite criar soluções em conjunto com o usuário final e que realmente atendam suas necessidades.

O design, quando bem aplicado, é capaz de resolver os problemas mais complexos de nossas vidas e propor soluções de acordo com as necessidades humanas de forma eficiente e rentável.

Nesse contexto, o design nos permite ir além do material e criar soluções para as coisas intangíveis que nos cercam: sejam elas culturas, processos, sistemas ou interações. A isso chamamos de design do invisível.

E todos aqueles que querem transformar o contexto em que estão inseridos e criar novas possibilidades para o futuro e inovar, também são designers, designers do invisível.

Porém, apesar de sermos designers, poucos se apropriam conscientemente do poder de transformação do design. O que se nota muitas vezes é o uso do design de maneira não intencional, inconsciente. No mundo, há muitos designers não intencionais. Pessoas, projetos, negócios que estão revolucionando de maneira sistêmica, de modo subjacente estão se valendo do design para tal.

O mais interessante é que mesmo quando estamos designing de modo não intencional, se passarmos pelas 4 camadas do design proposta por Richard Buchanan somos capazes de gerar mudanças sistêmicas. Um exemplo disso, é o Netflix. Se hoje o Netflix chegou ao ponto de revolucionar a forma como as pessoas se entretêm e consomem conteúdo, é porque sua trajetória esteve intimamente relacionada ao poder do design e suas camadas, quer tenha sido utilizado voluntária ou involuntariamente.

A história do Netflix

1997 – Lançamento da Netflix nos Estados Unidos por Reed Hastings e Marc Randolph como um serviço online de locação e vendas de filmes em DVD. Para o mercado a ideia não fazia muito sentido. Tempos em que o formato Digital Versatile Disc era um recém-lançamento e boa parte das famílias norte americanas ainda utilizavam exclusivamente fitas VHS. Além disso, os filmes eram entregues na casa do cliente, via correios.

1999 – O descrédito por parte dos críticos foi ainda maior com a introdução dos planos mensais de locação ilimitada. “Seria possível o negócio ser lucrativo assim?”, esse era o grande questionamento à época.

2000 – A Netflix lança um sistema de recomendação personalizada de filmes, que utiliza as classificações dos próprios assinantes da Netflix para recomendar títulos. Na mesma época, a empresa foi oferecida para a rede de locadoras Blockbuster, principal concorrente na época. Oferta negada porque os executivos da Blockbuster desacreditaram no potencial do negócio.

2010 – A Blockbuster pede falência nos Estados Unidos.

2017 – A Netflix é o principal serviço de TV por Internet do mundo, com mais de 93 milhões de assinantes em mais de 190 países.

Analisando em retrospecto, enquanto o mundo dos negócios partia da lógica do que é tecnicamente possível ou economicamente viável – ainda parte na maioria das vezes -, a Netflix partiu do que era desejável, da necessidade humana de ter acesso a conteúdos de qualidade onde quisessem. Exatamente o mesmo ponto de partida do Design. Vale ressaltar que sob a mesma ótica, Steve Jobs criou o Ipod, isto é, a partir da necessidade humana de poder ouvir a música preferida em qualquer lugar.

E quando falamos das quatro camadas, no fundo estamos falando como o design consegue atender à essa necessidade em diferentes níveis.

No caso do Netflix, é possível identificar aplicação delas desde do início, ainda que não fosse um processo consciente. A partir da perspectiva da primeira camada, o maior símbolo eram os envelopes vermelhos que chegavam via correio.

Fonte: netflix.com

No que tange à segunda camada, de produto ou objeto, a visão do design está presente pelo fato da empresa oferecer um filme com qualidade (formato DVD) aliado ao acesso ilimitado a vasto catálogo de filmes. A terceira camada, relacionada às interações, também está presente quando a empresa oferece um sistema de recomendação de filmes, o que por sua vez, representa uma nova forma de interagir e de consumir o conteúdo.

Quando falamos da quarta camada, a Netflix criou todo um processo, um fluxo em como se consome o conteúdo, que aliado às demais camadas, mudou o comportamento das pessoas na forma de consumir conteúdo. As pessoas ansiavam para que o tal envelope com exatamente o filme que elas gostariam de assistir chegasse às suas casas. A mesma expectativa acontece hoje quando uma série ou temporada nova está prestes a ser lançada.

Com esse modelo mental iterativo do design e a evolução das tecnologias, aliados ao fato de estarmos designing sistema vivo a transformação e o impacto na vida das pessoas se tornou exponencial. 

Portanto, cabe a todos nós como designers quando estamos projetando algo, quer seja um produto, serviço, negócio, utilizar o design e suas camadas de forma estratégica, para conseguirmos provocar mudanças rápidas e profundas em qualquer contexto.

Paulo Tiroli

Paulo é advogado, marketeiro e inquieto. Passou a notar que perdemos muito tempo tentando nos encaixar nos moldes dos outros e, por acreditar que todos possam encontrar a própria trilha, espera ajudar as pessoas nesse sentido. Participa de movimentos sobre empreendedorismo de impacto e crê na força dos negócios como ferramenta transformadora da realidade. Atualmente, faz parte do time da Echos – Laboratório de Inovação e sonha em ser facilitador de processos.

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